Tácito

Quem não se lembra de, n’Os Maias, Afonso da Maia ser um fiel leitor de Tácito, o “seu Tácito”? Não me lembro de ver essa questão explorada: por que é que Afonso lê Tácito? Representando uma geração de desalento e verificação da falência dos valores defendidos, parece-me o autor adequado. Vejamos os dois passos queirosianos (as páginas referem-se à edição electrónica da Porto Editora):
“Em Santa Olávia as chaminés ficavam acesas até Abril; depois ornavam-se de braçadas de flores, como um altar doméstico; e era ainda aí, nesse aroma e nessa frescura, que ele gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tácito, ou o seu querido Rabelais.” (p. 8 )
“Tinham-se encontrado ambos entusiastas de Tácito, de Macaulay, de Burke, e até dos poetas laquistas; Craft era grande no xadrez; o seu carácter ganhara nas longas e trabalhadas viagens a rica solidez de um bronze; para Afonso da Maia «aquilo era deveras um homem».” (p.154)
Já agora, e fora de Afonso da Maia, uma terceira referência: “Caminhando sob as acácias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da véspera, com a data: «À noite, à pressa.» E dizia: «Lê, nesse trapo que te mando, esse superior pedaço de prosa que lembra Tácito.” (439-40) Neste caso, temos o reconhecimento, por comparação, do talento do autor, afinal um prosaísta “superior”.
Ainda que estas referências n’Os Maias mostrem Tácito como um paradigma de boa literatura, está arredado dos curricula do ensino secundário e só tangencialmente surge no universitário: Tácito não é, nem nunca foi, autor de programas. Essa ausência não é de hoje. Falta-lhe a harmonia cristalina de Cícero ou mesmo de Lívio. A Idade Média não o acolheu — e só o Renascimento significa para ele um… renascimento. Sem interesse para a retórica (que trabalhava com Cícero), estando o lugar de historiador modelo preenchido por Lívio, Tácito desapareceu dos círculos culturais e o manuscrito mais antigo é do séc. IX. O seu estilo é desregrado porque mais solto, intenso. A sintaxe já não é a clássica (Tácito viveu na segunda metade do século I e morreu por volta de 117). Não interessava estudar um autor tão pouco clássico e tão negativo — a sua história é cheia de mortes e traições. Mas ele mesmo tem consciência (e lamenta-se) disso.
Hoje, ninguém o conhece — voltámos à Idade Média…

As Traduções
É um desafio ler Tácito no original. É um autor extremamente difícil, para o qual muitos dicionários escolares não dão resposta, pois estão mais preparados para traduzir Cícero, César e Vergílio (os autores puros e clássicos) do que qualquer outro escritor da Literatura Latina.
Concomitantemente, não há nenhuma tradução que consiga verter para vernáculo o estilo complexo do historiador (no entanto, aprofundar essa questão será entrar pela teoria da tradução, que não é o que pretendo — até porque a conclusão será, invariavelmente, afirmar que o tradutor é um traidor).
Mais preocupante ainda é a inexistência, em absoluto, de qualquer tradução portuguesa dos Anais ou das Histórias, por muito má que fosse.
De Tácito, em português, há apenas uma tradução de Adolfo Casais Monteiro da Germânia (publicada pela Editorial Inquérito — e actualmente esgotada); e uma tradução das obras menores (Agrícola, Diálogo dos Oradores e a mesma Germânia) feita por Agostinho da Silva.

Claro que noutras línguas existe um número significativo de traduções modernas dos Anais e das Histórias. Assim, das traduções das Histórias, destaco as seguintes:
– Tacitus, The Histories, trad. William Hamilton Fyfe, rev. e ed. David S. Levene (Oxford World’s Classics, Oxford: Oxford University Press, 1999).
– Tacitus, The Histories, trad. Kenneth Wellesley (Londres: Penguin Books, 1995). [em fase de revisão]
– Tacite, Histoires, trad. Henri Goelzer (Paris: Gallimard, 2002).
– Tacite, Histoires, trad. Henri Bornecque, apud Burnouf (Paris: Garnier, 1954).
Oeuvres Complètes de Tacite, trad. Jean Louis Burnouf (Paris: Hachette, 1861).

Das traduções dos Anais destaco:
The Annals, trad. Anthony John Woodman (Indianápolis: Hacket Publishing, 2004).
Tacite, Annales, trad. Pierre Grimal (Paris: Gallimard, 1993).
– Tacite, Annales, trad. Henri Bornecque, apud Burnouf (Paris: Garnier Flammarion, 1999).
– Tacitus, The Annals of Imperial Rome, trad. Michael Grant (Londres: Penguin Books, 1996).
Tacitus, The Annals, trad. Alfred John Church e William Jackson Brodribb (Nova Iorque: Dover Publications, 2006).
Prepara-se a publicação de uma nova tradução, editada pela Oxford University Press.

Neste conjunto, têm especial relevo a tradução de Pierre Grimal (um dos maiores latinistas franceses de sempre, autor das Memórias de Agripina) e de Anthony John Woodman, actualmente o maior especialista em Tácito e o universitário que mais trabalhos tem publicado sobre o historiador. Além de traduções literais e fiéis, as respectivas edições são enriquecidas com um grande conjunto de notas culturais que “actualizam” o cenário histórico da Roma de parte do século I d.C.


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