Acordo Ortográfico
O Acordo Ortográfico que volta a debate data de 1990 e — pode ler-se lá — “constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”. É a única motivação apresentada para que o acordo tenha sido assinado. Eu não concordo com ela.
É inegável que a língua com mais prestígio do mundo é a inglesa, que não tem qualquer acordo a regê-la. O inglês não precisa de unidade ortográfica para que as suas variantes britânica, americana ou australiana sejam inteligíveis. Mas não vou fugir ao tema: a vivacidade do inglês é muito própria e reside, também, no facto de não haver regras rígidas (para o hífen, por exemplo: “e-mail” já vem grafado sem hífen na edição de 2007 do Shorter Oxford English Dictionary). Além disso, as propriedades intrínsecas do inglês não são justificação para não aceitar o acordo da língua portuguesa. Justificação para não aceitar o acordo é o facto de ele não servir para nada e criar conflito com a tradição ortográfica portuguesa — desnecessariamente.
Ao contrário do que acontecia com a nomenclatura gramatical, que irá ser substituída pela Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário, o acordo ortográfico não tem na sua base uma necessidade urgente devida a desadequação científica. As actuais regras ortográficas, datadas de 1945, continuam a servir todos os utentes da língua portuguesa sem deficiências. Dizer-se que ajuda o ensino não é correcto. Não podemos partir do princípio que os alunos não são capazes de escrever “acção”, apesar de não pronunciarem o “c”. Não se aprende a escrever escrevendo o que se ouve: e isso é assim em português, em francês, em espanhol, em inglês, em grego, e certamente em quase todas as línguas vivas. Não se trata de medo de mudança, muito menos de conservadorismo (aliás, isto não é argumento para se dizer sim) — trata-se, antes de mais, de respeito pela tradição ortográfica, baseada na etimologia, na História da nossa língua. Toda a ortografia é mais etimológica do que fonética, e é o respeito pela etimologia que cria a tradição ortográfica de qualquer destas línguas que referi.Um dos argumentos dos que são a favor do acordo tem que ver com a abertura dos mercados português e africano à indústria livreira brasileira. Ora, isto é uma enorme estupidez. Como toda a gente instruída sabe, o português do Brasil pouco tem de português como nós, portugueses, o usamos. O que ninguém diz é que o português do Brasil não é diferente do português europeu e africano por causa da ortografia — aliás, é das poucas coisas que temos de semelhante. As grandes diferenças registam-se no domínio do vocabulário, da fonética e fonologia, e da sintaxe — o português do Brasil tem construções que em Portugal são agramaticais. Obrigar Portugal e os PALOP a irem atrás de uma língua que já não é a sua está errado, e é desonesto!
Há quem afirme que o acordo privilegia a produção editorial brasileira. Ora, isto só acontece virtualmente, porque os brasileiros vão fazer menos alterações do que nós, e somos nós que nos vamos aproximar da escrita deles. Os PALOP não necessitam que as editoras brasileiras enriqueçam, ou que as portuguesas saiam dos seus territórios. Precisavam, antes de mais, de criar as suas próprias indústrias livreiras, no domínio da literatura e no domínio ensaístico.
Nas cimeiras internacionais, ao contrário do que se diz, vai continuar a haver a necessidade de traduzir os documentos para duas línguas diferentes. As variantes são línguas distintas — e isso vai ter de ser assumido em termos políticos. As alterações que a língua sofreu no Brasil não pode ser travada por decretos: nem se pode obrigar Portugal a adoptar uma ortografia que não se justifica por uma necessidade premente exigida pela evolução fonética. As alterações propostas podem ser simplificadoras, mas não decorrem de necessidades de uso, mas de convenções artificiais — a ortografia é a parte mais artificial de uma língua e, repito, rege-se antes de mais pela etimologia: que é a justificação dada pelo acordo de 1990 para manter algumas grafias, com o “h” inicial, por exemplo.
É inegável que a língua com mais prestígio do mundo é a inglesa, que não tem qualquer acordo a regê-la. O inglês não precisa de unidade ortográfica para que as suas variantes britânica, americana ou australiana sejam inteligíveis. Mas não vou fugir ao tema: a vivacidade do inglês é muito própria e reside, também, no facto de não haver regras rígidas (para o hífen, por exemplo: “e-mail” já vem grafado sem hífen na edição de 2007 do Shorter Oxford English Dictionary). Além disso, as propriedades intrínsecas do inglês não são justificação para não aceitar o acordo da língua portuguesa. Justificação para não aceitar o acordo é o facto de ele não servir para nada e criar conflito com a tradição ortográfica portuguesa — desnecessariamente.
Ao contrário do que acontecia com a nomenclatura gramatical, que irá ser substituída pela Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário, o acordo ortográfico não tem na sua base uma necessidade urgente devida a desadequação científica. As actuais regras ortográficas, datadas de 1945, continuam a servir todos os utentes da língua portuguesa sem deficiências. Dizer-se que ajuda o ensino não é correcto. Não podemos partir do princípio que os alunos não são capazes de escrever “acção”, apesar de não pronunciarem o “c”. Não se aprende a escrever escrevendo o que se ouve: e isso é assim em português, em francês, em espanhol, em inglês, em grego, e certamente em quase todas as línguas vivas. Não se trata de medo de mudança, muito menos de conservadorismo (aliás, isto não é argumento para se dizer sim) — trata-se, antes de mais, de respeito pela tradição ortográfica, baseada na etimologia, na História da nossa língua. Toda a ortografia é mais etimológica do que fonética, e é o respeito pela etimologia que cria a tradição ortográfica de qualquer destas línguas que referi.Um dos argumentos dos que são a favor do acordo tem que ver com a abertura dos mercados português e africano à indústria livreira brasileira. Ora, isto é uma enorme estupidez. Como toda a gente instruída sabe, o português do Brasil pouco tem de português como nós, portugueses, o usamos. O que ninguém diz é que o português do Brasil não é diferente do português europeu e africano por causa da ortografia — aliás, é das poucas coisas que temos de semelhante. As grandes diferenças registam-se no domínio do vocabulário, da fonética e fonologia, e da sintaxe — o português do Brasil tem construções que em Portugal são agramaticais. Obrigar Portugal e os PALOP a irem atrás de uma língua que já não é a sua está errado, e é desonesto!
Há quem afirme que o acordo privilegia a produção editorial brasileira. Ora, isto só acontece virtualmente, porque os brasileiros vão fazer menos alterações do que nós, e somos nós que nos vamos aproximar da escrita deles. Os PALOP não necessitam que as editoras brasileiras enriqueçam, ou que as portuguesas saiam dos seus territórios. Precisavam, antes de mais, de criar as suas próprias indústrias livreiras, no domínio da literatura e no domínio ensaístico.
Nas cimeiras internacionais, ao contrário do que se diz, vai continuar a haver a necessidade de traduzir os documentos para duas línguas diferentes. As variantes são línguas distintas — e isso vai ter de ser assumido em termos políticos. As alterações que a língua sofreu no Brasil não pode ser travada por decretos: nem se pode obrigar Portugal a adoptar uma ortografia que não se justifica por uma necessidade premente exigida pela evolução fonética. As alterações propostas podem ser simplificadoras, mas não decorrem de necessidades de uso, mas de convenções artificiais — a ortografia é a parte mais artificial de uma língua e, repito, rege-se antes de mais pela etimologia: que é a justificação dada pelo acordo de 1990 para manter algumas grafias, com o “h” inicial, por exemplo.
Não aceito o acordo porque ele não serve para nada (a unificação a que se alude também é ilusória).
Ligações:
Ler o Acordo de 1990.
Em Defesa da Língua Portuguesa.
Petição contra a implementação do acordo ortográfico da língua portuguesa de 1990; Não ao Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Reacções: artigo do PÚBLICO.
PS: Claro que todos os blogues e colunistas dos jornais agora falam do Acordo Ortográfico (quer para o defenderem, quer para o reprovarem). Poucos autores terão sequer lido os propósitos e as bases do acordo. É uma atitude natural e será legítima, mas não honesta.
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1.
João Albano Nunes Ribeiro | Fevereiro 28, 2008 at 11:53 pm
Efectivamente, nenhum português (excepto algum atrasado mental), devia concordar com o acordo.
Dizem que a razão de ser também seria por haver não sei quantos milhões de brasileiros. Tudo bem. Que criem sua própria língua.
Eu perguntaria: Pelo facto de eu ter crescido mais que minha mãe, devo deixar de a respeitar?
O que querem fazer… mete nojo.
João Ribeiro
2. Livro de Estilo | Março 7, 2008 at 1:25 am
[...] Acordo Ortográfico [...]
3.
Celio Pessanha | Setembro 22, 2009 at 12:01 am
Concordo que o Acordo Ortográfico não trará nenhum benefício às duas vertentes da língua portuguesa. A fonética sim, se houvesse possibilidade de aproximá-las, avançaríamos muito na compreensão dessas vertentes, confesso que como brasileiro, não entendo às vezes nada do que diz um português e o contrário deve ser verdadeiro.
4.
Henrique Carlos | Abril 6, 2008 at 10:54 am
Sim ao acordo.
Porque torna a língua portuguesa mais utilizável no contexto internacional e no contexto nacional.
A língua portuguesa tem gerado muitas frases, e tem o potencial para gerar ainda mais frases.
A maioria esmagadora das frases possíveis de construir – com as palavras existentes – são aceitáveis tanto no Brasil como em Portugal.
As frases só aceitáveis numa das variantes da língua portuguesa são definitivamente em muito menor número.
Estamos perante uma grande língua, com variação no seu interior: regional, sociolectal, social, etc…
5. Acordo Ortográfico « Anti-depressivos | Abril 6, 2008 at 4:50 pm
[...] a mim, subscrevo em absoluto: http://livrodeestilo.wordpress.com/acordo-ortografico/ . Aqui neste blog, o leitor não tem que se preocupar. A língua portuguesa, tal como a conhece e [...]
6.
D Pt Mdr | Abril 18, 2008 at 10:40 pm
Ora, a questão é mesmo Política!!!
Queremos ou não queremos ser a RESERVA ZOOLÓGICA DE BURROS do BRASIL NA EUROPA???
Ui! Ui! Roque In Rio! Já papou muito burro!
7.
Julianacdc | Abril 27, 2008 at 12:06 am
Interessante o texto, a maioria dos brasileiros tbm não concorda com essa reforma ridícula. O português e o brasileiro são duas línguas totalmente diferentes e seria interessante contar com o apoio dos portugueses ao movimento pela separação dos idioma do Brasil.
Eu só não concordo om um ponto: “o português do Brasil não é diferente do português europeu e africano por causa da ortografia” Isso não é verdade, o que acontece é que usamos a gramática “portuguesa” com normas que absolutamente não pertencem a língua do Brasil, regras que não respeitam nossa tradição lingüística que simplesmente reduzem nossas diferenças a erros. O que acontece é que, por causa de alguns idiotas, somos obrigados a estudar em uma gramática “estrangeira”, somos enganados quado dizem se tratar de normas referentes ao idioma brasileiro. Ainda bem que os lingüistas retomaram, com força e militância, o movimento pela independência da língua brasileira, finalmente teremos uma gramática que corresponda ao verdadeiro idioma do Brasil.
Vejam o que vários dos nossos maiores lingüistas dizem:
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“A lei da evolução, de Darwin, estabelece que duas populações de uma espécie, se isoladas geograficamente, separam-se em duas espécies. A regra vale para a Lingüística. “Está em gestação uma nova língua: o brasileiro”, afirma Ataliba de Castilho.
Há quem seja ainda mais assertivo. “Não tenho dúvida de que falamos brasileiro, e não português”, diz Kanavillil Rajagopalan, especialista em Política Lingüística da Unicamp. “Digo mais: as diferenças entre o português e o brasileiro são maiores do que as existentes entre o hindi, um idioma indiano, e o hurdu, falado no Paquistão, duas línguas aceitas como distintas.” Kanavillil nasceu na Índia e domina os dois idiomas.”
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“No meu modo de ver as coisas, já é possível considerar o português do Brasil como uma língua românica de status igual ao do francês, do italiano, do espanhol etc.[…] Nenhuma língua, enquanto tiver gente falando ela, pode resistir às mudanças que ocorrem em suas estruturas com o tempo. Assim, passados 500 anos, tanto a língua de cá quanto a língua de lá se modificaram, cada uma delas numa direção, exibindo diferenças nessas mudanças, fazendo opções diferentes, escolhas diferentes. E a tendência, como indica o desenho, é à diferenciação sempre maior com o decorrer do tempo.”
Marcos Bagno
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“O português e o ‘vernáculo’(a língua falada pelos brasileiros) são, é claro, línguas muito parecidas. Mas não são em absoluto idênticas. Ninguém nunca tentou fazer uma avaliação abrangente de suas diferenças; mas eu suspeito que são tão diferentes quanto o português e o espanhol, ou quanto o dinamarquês e o norueguês. Isto é, poderiam ser consideradas línguas distintas, se ambas fossem línguas de civilização e oficialmente reconhecidas.”
Mário Perini
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“É uma violência inútil ajeitar-se uma idéia a um molde inadequado que a comprime, que a machuca, que a deforma, somente porque esse molde assentava bem a essa idéia há 100 anos passados.É martírio para a mocidade que aprende e humilhação para o mestre inteligente que ensina, esse bilingüismo dentro de um só idioma – essa unidade exterior, de superfície, de duas línguas que se repelem, a língua que falamos e a língua que escrevemos. [...]Nós, no Brasil, presos à gramática “portuguesa”, somos vítimas de uma desintegração dolorosa de nós mesmos. [...]A língua brasileira, já ninguém discute isso, diverge da portuguesa;” Mário Marroquim
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Sabe aquela história de que falamos português? Pois bem, segundo o lingüista Nicolau Leite, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo aquilo não passa de nhenhenhém. Como nossa língua pode ser portuguesa se ela é formada por 30 000 vocábulos indígenas e mais de 3 000 palavras trazidas pelos escravos africanos do tronco banto? Nicolau Leite acha que nosso idioma é mesmo o brasileiro e que é absurdo tentar unificar as línguas com normatizações. O português, no fundo, foi só a casa de fundação da nossa língua, que recebeu e continua recebendo influências de todos os lados, afirma.
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“Assim como o Português saiu do Latim, pela corrupção popular desta língua, o Brasileiro esta saindo do Português. O processo formador é o mesmo: corrupção da língua mãe.” Monteiro Lobato
Um blog interessante:
http://idiomabrasileiro.blogspot.com
8. Acordo ortográfico será aprovado hoje no parlamento « Livro de Estilo | Maio 15, 2008 at 8:44 am
[...] Acordo Ortográfico [...]
9.
Rafael | Maio 16, 2008 at 6:59 am
Acho importante este acordo. E penso que os portugueses não gostaram porque se sentem donos da língua. Eu sou brasileiro, falo português assim como meus avós, bisavós, tataravós… e também me sinto dono da língua.
Acho que os portugueses deviam olhar com mais atenção para o Brasil e perceberem que a variante brasileira é a mais falada e ensinada no mundo.
Se o português do Brasil passar a ser considerado uma outra língua, quem sairá perdendo é Portugal, pois o português passará a ser uma língua falada por poucos e devido a globalização tenderá ao desaparecimento. Estou escrevendo isso porque já li a respeito.
Não se esqueçam que a variante brasileira é falada por aproximadamente 190 milhões de brasileiros que vivem dentro e fora do Brasil, sendo de longe a variante do português, mais falada, lida e escrita.
E que o português europeu é falado por apenas 11 milhões de portugueses – para se ter uma idéia, só a região metropolitana da cidade de São Paulo possui mais de 19 milhões de habitantes.
Somando os falantes europeus com os africanos temos apenas 50 milhões dos mais de 230 milhões de falantes no mundo.
A língua portuguesa deve sua importância atual no mundo ao Brasil.
10.
Humberto | Maio 17, 2008 at 3:41 pm
Interessante os exemplos de “maiores lingüistas” , defensores dum idioma brasileiro, dados pela Srª Dona Julianacdc. Falam muitos deles num tal idioma espanhol. Provavelmente o idioma brasileiro que defendem deve ser como esse tal de espanhol que ninguém fala. Ou nserá o dos brasileiros que dizem “deletar” ou “escanisar”?
11.
PA | Maio 19, 2009 at 11:20 am
Tomei a liberdade de criar um autocolante alusivo ao tema
12.
PA | Maio 19, 2009 at 11:22 am
Tomei a liberdade de criar um autocolante alusivo ao tema. Usem e abusem!