Caixotim contra o Acordo
Abril 24, 2008
Para os que conhecem a actividade editorial de «Edições Caixotim» não terá sido motivo de estranheza a posição assumida recentemente pela Editora e tornada pública através de um cartaz colocado na montra da Livraria Caixotim (Rua dos Clérigos, 23 – Porto). Esta atitude, que precedeu em data quer os diversos artigos de opinião divulgados pela imprensa escrita, quer o debate (?) na Assembleia da República quer, mais próximo em data, o programa “Prós e Contras” da RTP1, decorre quase numa sequência natural de quem tem prestado à escrita e à língua portuguesa uma particular atenção, visível quer nas opções editoriais, tomadas ao longo de sete anos de existência, quer nos cuidados postos a nível da revisão e fixação de textos de autores clássicos, uma das vertentes que, aliás, distingue esta Editora no universo do livro português.
Daí que será decerto redundante explanar as razões que assistem a essa posição, basicamente centrada no pressuposto de que é fundamental defender a língua portuguesa, quando as razões pelas quais se procura a sua modificação (ou “adaptação”, “aproximação”, a outros códigos da expressão escrita) se alicerçam no plano economicista e de globalização consumista, no limite argumentativo visando uma ambiciosa política de expansão da língua portuguesa. Na verdade, nem sequer se percebe como é possível haver defensores do denominado “acordo” ortográfico que, na sua vida profissional de académicos e investigadores, procuram com denodo fundamentar teses de genética textual, estabelecendo regras comparativas entre matrizes textuais e subsequentes textos impressos, inferindo dos conceitos ou formação linguística, escolar e sócio-cultural em que radicou o húmus que fez este ou aquele autor seguir determinada construção verbal, usar um léxico de rigor formal ou de acentuado pendor popular, pedir de empréstimo uma expressão coloquial. Com a desejada uniformização, as diferenças serão necessariamente esbatidas, ou antes, eliminadas.
Para quem se tem esforçado por apresentar aos leitores de hoje e do futuro uma obra tão depurada quanto o exige a reedição das obras de autores clássicos como Camilo Castelo Branco (Camões, Garrett, António Feijó, Trindade Coelho, etc.), confirmando vocábulos, idiolectos, semânticas, em dicionários de referência (em particular, o de Rebelo Gonçalves), corrigindo lapsos e gralhas, confrontando linha a linha primeiras edições (ou outras que sofreram modificações ou correcções por parte dos autores), a possibilidade de todo este esforço ser menosprezado por uma edição banal e descuidada, sem exigências a nível de uma matriz fidedigna (os casos abundam), certamente conseguida por um qualquer processo de digitalização ou leitura OCR, que só procura alcançar o êxito fácil e de preferência amplo, em redes distributivas e de grande superfície, só pode encarar-se como um golpe vil e irresponsável no corpo da língua portuguesa. O mesmo que dizer na identidade que confere a um povo e à sua cultura o modo particular de se afirmar no tempo e no mundo.
É certo que todos ignoram hoje (ou preferem omitir aqueles que o sabem) a importância que a língua tem para a criação literária, em particular a expressão poética. Pascoaes defendeu uma fisionomia das palavras, porque sabia que estas têm uma vida própria, resultante do seu uso secular e da sua relação com a vida humana e a evolução do espírito criador. A escrita sónica, tentada no início do século XX, revelou-se inconsequente e os linguistas, por outro lado, mostram em estudos actuais a prevalência da escrita sobre a fonética na aferição da língua. Por outro lado, a legitimidade dos falantes da mesma língua não confere a estes (porque fora da falácia do enunciado democratista) o direito de alteração ou supressão de um código linguístico que se foi formando de par e passo com a realidade de um povo, numa dada circunstância.
Como escreveu em data recente Fernando Venâncio — “…a eliminação das consoantes mudas é de duvidoso ganho e de muita provável perda. Ninguém, até hoje, fez as exactas contas. Mas é de crer que este Acordo saia caro ao português como o falamos”.
Embora a perspectiva dos custos e impacto financeiro — que tal “acordo” vai implicar junto das Editoras — constitua cerne do documento e exposição recentemente apresentado pela APEL no quadro da Conferência Internacional/Audição Parlamentar, realizada na Assembleia da República, o que move «Edições Caixotim» a esta atitude é outra vertente, enraizada nos valores estilísticos e no património imaterial da língua, domínio com certeza mais coerente e válido do que as análises económicas. E não temos receio dos epítetos com que alguns pretendem amedrontar quem defende esta ordem de valores, cuidando que as actuais vagas de nacionalismo que percorrem a Europa servem a identificar quem assume um pensamento e afirmação cultural pátria (no sentido pessoano).
Finalmente, em todo este processo, como entender a falta de uma discussão alargada com a Universidade (não bastará, por certo, colher a estrita opinião de académicos ligados à área técnica), as associações dos editores e representantes daqueles que cultivam a língua, tal é o caso da APE? Não é apenas a constitucionalidade e formal ratificação do “acordo” que está em causa. Para a memória do passado e o desejo de um futuro no sentido da armilar esfera de portugalidade cumpre a cada um saber o que é essencial – e defendê-lo.O Editor
Paulo Samuel
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1.
André | Abril 25, 2008 at 11:40 am
Eu fico sempre arrepiado com os arroubos nacionalistas do tipo do da última frase. Mas mais arrepiado ainda com “de par e passo”. Como se sabe, o correcto é “pari passu”, em bom latim. Mas adiante. Quanto ao texto, parece-me que espremidinho pouco diz. Há uma frase bonita, mas que não tem qualquer sentido, tendo em conta o que se defende:
“Pascoaes defendeu uma fisionomia das palavras, porque sabia que estas têm uma vida própria, resultante do seu uso secular e da sua relação com a vida humana e a evolução do espírito criador.” Isto seria verdade se a nossa ortografia fosse “secular”, como a francesa ou inglesa (ainda assim não tão secular como isso). Mas usar esta afirmação para defender uma ortografia que, na sua configuração actual, tem a minha idade, que na sua configuração mais genérica tem a idade da minha mãe, e na sua configuração mais global tem pouco mais do que a idade dos meus avós paternos, parece-me um pouco descabido. Embora eu concorde com a frase, note-se. Tive essa experiência há dias, quando lia as duas primeiras páginas de uma publicação de 1942. Aquilo parecia de facto uma coisa muito longínqua, com uma grafia tão longe da relacção afectiva que criei com a actual trintona configuração da nossa ortografia. Mas o choque maior foi quando eu estava no 12º ano, em 1989, e um professor de literatura portuguesa me alertou para o facto de “fàcilmente” ser erro ortográfico desde os anos 70. Ora eu tinha construído uma relação afectiva com aquele acentozinho, criada ao longo de anos de leitura revencial da obra completa do Eça de Queirós nas edições dos Livros do Brasil, que ainda hoje se vendem com a velha ortografia pré-70’s, e ninguém morre por causa disso. O que derruba mais um argumento dos que atacam o acordo: no actual mercado editorial português convivem, sem dramas, edições em duas ortografias. Em relação ao Eça, esse é também um dos meus muitos desgostos amorosos: eu construí, ao longo da adolescência, uma relação afectivo intensa com a grafia com que o Mestre foi baptizado, “Queiroz”. Depois vieram-me dizer que ele tinha sido rebaptizado, algures numa das 3 revisões ortográficas posteriores à sua morte, “Queirós”. Eu resisti durante anos, mas acabei por me render. A propósito, em que ortografia a Caixotim edita os clássicos portugueses? Naquela em que foram escritos (ou escriptos), ou na resultante da revisão dos anos 70 do século XX, salvo erro no ano em que eu nasci? E são portuguêses, portuguezes ou portugueses? Eu francamente tenho uma relação afectiva com a secular 2º forma, mas não tenho problema nenhum com a jovem 3ª forma.
Em suma, não entendo a razão de tanto arrebatamento (nem contra nem a favor) por causa de um mini-acordo que não altera praticamente nada.
2.
André | Abril 25, 2008 at 11:41 am
Onde escrevi “relacção” obviamente queria escrever “relação”. Já estava com a mente na inútil consoante muda de “afectiva”.
3.
cynthia | Janeiro 28, 2009 at 9:06 am
Sem matriz não há língua e a matriz encontra-se no português de Portugal. Os outros povos são livres de voar com a língua por várias circunstâncias: culturais, geográficas, antecedentes linguísticos. Portugal tem o dever de manter a raiz. Só assim a sua língua não se perde nem se dispersa nas vairações do mundo. Há sempre o risco da dispersão e, por isso, da diluição da lingua e, consequência das consequências, do seu desaparecimento. Seria demasiado triste que isso acontecesse.